boletim online

jornal de membros, alunos, ex-alunos e amigos de psicanálise

Um assombro

por Cristiane Abud[1]

 

Eu tive a alegria de participar do XIII Congresso FLAPPSIP, com o tema Eros, alteridade e criatividade em tempos de assombro, nos dias 16, 17 e 18 de outubro de 2025, em Lima, no Peru.

Lima mostrou-se uma cidade pobre e desigual, mas também muito viva e rica, principalmente em gastronomia e cultura. Para além dos restaurantes renomados pela marca de grandes chefs internacionalmente reconhecidos, come-se bem em qualquer biboca em que se entre.

Na área da cultura, destaco dois museus. O primeiro chama-se Amano, Museo Textil Precolombino ou, em minha própria designação, Museo Textil Inca, com peças de mais de 900 anos, repletas de estampas e bordados reveladores da cultura inca, seus costumes e símbolos.

O segundo chama-se Museo Arqueológico Rafael Larco Herrera, com um “acervo de mais de 5.000 anos de história do antigo Peru, através de uma fascinante coleção de arte pré-colombiana”. Essa citação extraí do site do museu e não deixei de reparar na ausência de menção à palavra “inca”, responsável por 5 mil anos de história contra, aproximadamente, 550 anos dos colonizadores. Mas essa é uma outra questão, deixada para outra discussão.

O que me encantou no museu Larco foi uma parte do acervo chamada Galeria Erótica Checan. Ali se encontram peças referentes à sexualidade interessantíssimas, representando relações sexuais em diversas posições e formas, sexo oral, pênis e, pasmem, vagina. Há também peças representando o parto, com o homem atrás da mulher, apoiando-a e confortando-a, enquanto uma terceira pessoa parece brotar da terra para realizar o parto. Uma peça chamou-me a atenção: duas figuras representando mulheres com a cabeça no formato de vagina, com direito a pequenos e grandes lábios, nuas, peladinhas, sem véu, sem tecido inca encobrindo-as, sem disfarce, sem castidade e sem-vergonha, deliciosamente sem-vergonha!

Ah, sim, eu falava do congresso. O congresso foi uma profusão de trabalhos escritos em português e espanhol. O Tratado de Tordesilhas ruiu, e quem fala português teve a oportunidade de ler no telão a versão em português das apresentações proferidas em espanhol, e vice-versa. Muitos trabalhos sobre diversos temas reunidos em uma maratona de três dias de muito aprendizado. Nossa querida Silvia Alonso nos iluminou com seu brilho teórico e afetivo, revelando, mais uma vez, a nossa sorte de poder com ela conviver e aprender sobre a importância do feminino em nossas clínicas e experiências de vida.  Contamos ainda com uma apresentação magistral da Isildinha Baptista Nogueira, aplaudida em pé pela sua sabedoria e coragem. E por fim, Miriam Chnaiderman nos presenteou com um vídeo bem brasileirinho que abrirá a próxima FLAPPSIP no Brasil. Parabéns à Silvia e a todos os organizadores do congresso! O assombro que apontei no título desta comunicação trata de uma situação ocorrida em uma das mesas a que assisti. A mesa em questão aconteceu no auditório principal do congresso e era composta por três expositores, uma colega mulher e dois colegas homens, além de uma mediadora. No palco não havia mesas, mas quatro poltronas, sendo duas de frente para o público e as outras duas posicionadas mais na lateral do palco, em diagonal, ou seja, sem que a pessoa pudesse ver e ser vista por toda a plateia.

Os dois colegas homens apresentaram primeiro seus trabalhos, olhando de frente para a plateia, falando em espanhol, com seus textos apresentados em português no telão, e com a certeza de terem feito um bom trabalho. A colega palestrante, sentada na lateral, precisava fazer uma torção no corpo para conseguir ler o texto traduzido no telão. Até que chegou a sua vez de apresentar. Ela, gentilmente, ofereceu a seus companheiros de palco uma versão do texto em espanhol, impresso em papel, de forma que eles não precisavam se contorcer para acompanhar a sua apresentação.

Enquanto ela apresentava seu trabalho, os dois, que se aproximaram para ler o texto em espanhol, faziam comentários entre eles, seguidos de risadas discretas. E a nossa querida colega seguia sua apresentação com galhardia! Eis que a mediadora da mesa comunica à nossa colega que lhe restava um minuto para encerrar sua exposição! Não eram 10 ou 5 minutos, como normalmente se faz quando se tem consideração pelos pares, mas apenas 1 minuto. E, claramente, seu tempo foi abreviado pelo fato de ter sido ocupado pelos outros palestrantes.

E como o fundo muitas vezes torna-se relevo, sua comunicação tratava de duas psicanalistas contemporâneas de Freud, que deixaram uma grande obra para o esquecimento e o silenciamento. Nossa querida colega fez um resgate histórico dessas experiências clínicas e teóricas construídas por Sabina Spielrein e Lou Andreas-Salomé, trazendo sua rica e recalcada produção à tona para ser conhecida por todos do nosso meio. Sabina e Lou também se contorciam para serem ouvidas.

Sabe-se que um congresso, como todo fenômeno social, é construído e composto por questões políticas, econômicas, sócio-históricas, pulsionais, institucionais, organizacionais, míticas, grupais, individuais, raciais e de gênero (Enriquez, 1989). Há alguns anos, estive no Conselho de Direção do Departamento de Psicanálise como articuladora de Eventos. Na época, eu intuía as ideias que escrevo aqui, mas apenas hoje, olhando para trás, consigo ressignificar essa tarefa e nomear as decisões daquele momento: quem convidar – mulheres, negros, indígenas, pessoas trans, homens –, que tema abordar, como divulgar, como dispor a mesa e os lugares na mesa (mais de uma vez notei os homens no centro e as mulheres apertadas, esforçando-se para não cair para fora da mesa), como organizar o tempo, o café e outras coisas mais. Tudo, absolutamente tudo significa decisões políticas, econômicas, grupais, históricas.

As duas mulheres com a cabeça de vagina, contrariamente à proposição de Freud de que as mulheres são responsáveis pela tecelagem para cobrir e encobrir a castração, despidas de qualquer signo que não a própria vagina, resistentes ao seu apagamento através dos tecidos então fabricados, podem nos inspirar a assumir nosso espaço social, laboral e cultural, a cuidar desse espaço da mulher em todos os seus âmbitos.

Tal será uma de nossas responsabilidades na próxima edição do congresso FLAPPSIP, aqui no Sedes, São Paulo, Brasil.

 

ENRIQUEZ, E. O trabalho da morte nas instituições. In: KAËS, R. et al. (orgs.). A instituição e as instituições: estudos psicanalíticos. São Paulo: Casa do Psicólogo, 1989.

 

__________

[1] Psicanalista, membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae, diretora suplente do Instituto Sedes Sapientiae 2025-2027.

uma palavra, um nome, uma frase e pressione ENTER para realizar sua busca.