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Acreditamos na ficção ou um mundo sem metáforas é um mundo em coma[1].  Reflexões sobre a Flip 2026.

por Daniela Athuil[2]

 

Há uma brincadeira transmitida de geração em geração que meus filhos adoram. Consiste em desafiarmos uns aos outros a responder sobre certos dilemas morais ou situações esdrúxulas, às quais pode-se acrescentar a ideia de uma recompensa financeira. Os contextos são propositadamente provocativos e nos fazem imaginar cenas moralmente condenáveis, cruéis, repugnantes ou ridículas.

como revelar-te se me revelas? (Orides Fontela)

Conhecido como jogo dos dilemas morais, e batizado pelos meus filhos de dilemas estúpidos, essa espécie de exercício de suspensão moral temporária e de negociação de limites me fez pensar que uma das coisas que a ficção nos permite é habitar, por meio de suas personagens ou situações, o campo das contradições e ambiguidades, ou seja, a criar outras versões de nós, menos pautadas por regras sociais e morais.

A graça do jogo não está exatamente na resposta dada, mas tal como na ficção, ou como no processo do sonhar, o que mobiliza e torna interessante a brincadeira é a permissão em inventar outras formas de existir, sentir e pensar. Até onde seríamos capazes de ir em nossas transgressões imaginárias? Liberdade imaginativa que possibilitou a criação de personagens abomináveis da literatura, e tantos outros radicalmente ordinários.

É no exercício de brincar sem o crivo moral ditando nossa imaginação que triunfamos na habilidade em separar o pensar do fazer.

toda palavra é crueldade (O.F.)

A ficção nos dá o mesmo benefício: tornar públicos nossos pensamentos privados, sem que eles sejam concretizados por nós.

É também prerrogativa da ficção transfigurar a experiência do real, uma outra dimensão do processo imaginativo que vem em nosso socorro, dessa vez não para que nossos pensamentos tenham espaço fora da ação, mas para que possamos pensar o indizível.

Numa das mesas da programação oficial da Flip, com Paloma Vidal e Eduardo Dalfon, uma das questões levantadas pela mediadora Gabriela Mayer era justamente a fronteira entre o espaço da ficção e sua interpolação com a realidade.

Eduardo, autor de O boxeador polonês, diz que é preciso fazer com que o leitor crie uma conexão emocional com o texto, e comungue com o autor de uma verdade lá onde a representação não se confunde com a adesão.

se o delírio te eleva à potência do abismo (O.F.)

Se há uma dimensão onde a ficção nos permite reconhecer, criar e habitar a pele das nossas mais profundas contradições e dos nossos mais íntimos ridículos, há também uma dimensão elaborativa, de tornar possível dizer aquilo que não se pode pensar ou falar, não por ser um segredo, mas por ser irrepresentável ou inacessível. Uma espécie de equipamento para o enfrentamento do real, à maneira de um escafandro, imagem trazida por Eduardo para falar dos processos traumáticos.

Em mais um exercício de associação livre, chego então às ótimas lições do professor Sidnei Barreto em defesa da metáfora (a respiração da linguagem), juntando-as ao escafandro de Eduardo Dalfon. “Um mundo sem metáfora é um mundo em coma”. A ficção e seu processo imaginativo, metafórico, tal como um escafandro, nos permitiria respirar e alcançar lugares inacessíveis de outro modo.

não mais sabemos do barco, mas há sempre um náufrago (O.F.)

Ana Paula Tavares, poeta angolana, autora de Um rio preso nas mãos e Amargos como os frutos, entre outros, (uma grata surpresa para mim, que não a conhecia), em conversa com Tarso de Melo, também nos fala dessa vocação escafandrista da literatura, numa exposição que levou o público ali presente à emoção ao escutá-la contar sobre sua relação com a poesia como força de vida e de enfrentamento do sistema colonial. “Tentei com a poesia falar com as pessoas até assumirem sua forma de sujeito, e não mais de objeto”.

A homenageada pela Flip deste ano, a poeta Orides Fontela, cuja sonoridade poética cortante e precisa estava presente não só nas falas das mesas em sua homenagem, mas parecia ecoar como um canto nas ruas de Paraty, sustenta, num limite de espessura mínima, esse ponto de maior tensão, onde a palavra toca a coisa, onde a ficção corta o real, sem desfazê-lo.

a um passo
do pássaro
res
piro (O.F.)

De férias do nosso cotidiano rabugento, sujeitos aos mesmos tropeços que nossos autores mais admirados, nos esquecemos por alguns dias (sem deixar de falar delas, aliás, falou-se muito), das catástrofes climáticas, das guerras, e de que o mundo tem se tornado real demais, irrespirável.

A Flip é cheia de sua própria vida, feita de gente que insiste em procurar imagens, em criá-las, de gente que quer “lamber o mundo”, expressão usada por Andrea Del Fuego em conversa sobre o que pode a imaginação em suas experimentações da linguagem. E essa espécie de banquete de palavras com as quais nos servimos ao ler um livro, me remete a uma outra dimensão que a literatura nos oferece que é a do prazer, especialmente o prazer de compartilhar a experiência de ler e o que ela provoca em nós.

nunca amar o que não vibra, nunca crer no que não canta (O.F.)

E se acreditamos na ficção é porque nesse circuito infinito, onde uma história produz tantas outras, ela nos permite tanto quanto nos impele a lidar com a banalidade do mundo, nos devolvendo o ar, o espanto, a sensibilidade e ainda o prazer do compartilhamento.

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[1] Expressão criada por Sidnei Barreto Nogueira, doutor e mestre em Semiótica e Linguística Geral pela FFLCH-USP/SP, Babalorixá da CCRIAS- SP, escritor, pensador preto decolonial e diretor do Instituto Ilê Ará-SP.

[2] Psicanalista, membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae, integrante da equipe editorial do boletim online.

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