Sobre o XIII Congresso FLAPPSIP e sobre algo logo mais adiante
por Maria de Fátima Vicente, pelo Grupo de Apoio à FLAPPSIP
Passados alguns meses desde o encerramento do XIII Congresso da FLAPPSIP, ocorrido em Lima, Peru, podemos, em retrospectiva, buscar ressaltar as linhas de força que o caracterizaram para, ao evidenciá-las, consolidar os elementos que insistem, tomando-os como matéria de reflexão sobre o acontecido e interrogantes do que nessa insistência possa apontar para desdobramentos que estejam a se engendrar.
Comecemos por retomar o artigo de Helena Albuquerque, no número 74 do Boletim online de nosso Departamento[1], que incrementa a divulgação a esse coletivo, dos eixos organizadores do Congresso, convidando à participação de todes. Mais que um texto informativo, Helena realça as implicações do tema – Eros, alteridade e criatividade em tempos de assombro – o pulso da psicanálise – mostrando como a escolha da via do assombro se apresenta como o modo de fazer furo na compacidade dos discursos correntes sobre o “fim do mundo”, onipresentes na sociedade contemporânea. O texto aponta como tais discursos procuram impor a naturalização do momento histórico crítico que vivemos, ao se oferecerem como cantilena hipnótica de adesão ao conformismo e à anuência intelectual derrotista e, principalmente, ao fomentarem o consentimento gozoso das forças de destruição e autodestruição que compõem, com Eros, o conflito psíquico radical que nos caracteriza. Helena afirma, com Airton Krenak que “nós não podemos nos render a essa narrativa de fim do mundo. Essa narrativa é para nos fazer desistir de nossos sonhos” e, dito isso, sublinha como as diversas ações políticas que têm ocorrido na sociedade brasileira têm sido instituintes de novas possibilidades de refazer o mundo, uma vez que são fecundas em modificar aquela realidade que nos é vendida como intransponível, transfigurada pela narrativa dos excessos paralisantes. O convite à anulação das ações que possam transformar as condições de produção dessa realidade de excessos é combatido por aquelas outras, que resgatam do assombro a surpresa e a esperança, que nos permitem sustentar os sonhos.
Ao reconhecermos que há um saber fazer coletivo que nos convoca, engaja e implica também nos reconhecemos alinhados com esse saber-fazer sustentado pelas resistências ao extermínio dos povos originários, pelos movimentos antirracistas que denunciam e combatem os privilégios da branquitude, pelas lutas decoloniais, pela luta antimisoginia e denúncia do patriarcado levadas avante pela comunidade LGBTQIAPN+, e por variados coletivos de mulheres, assim como por muitos outros agrupamentos insurgentes que se especificam nos diferentes territórios que sediam as associações.
Os eixos temáticos propostos pelo programa do XIII Congresso assinalaram os caminhos pelos quais a psicanálise vem participando, com seu saber-fazer específico, dessas ações transformadoras da realidade. Eles convergem em sua aposta na criatividade e na hospitalidade de nossa práxis e na produção do pensamento necessário àquelas transformações.
Cabe ressaltar que não se trata de A Psicanálise genericamente considerada, abstrata e pretensamente universal, mas daquela “psicanálise em movimento, que leva em conta os processos subjetivos de transformação, mas também os efeitos sociais e políticos sobre as subjetividades”, como elucida Sílvia Alonso[2] sobre nossa escolha em participar dessa Federação que tem afinidades com as balizas que norteiam o Departamento de Psicanálise do Sedes. Aquela psicanálise que se encontra representada pelos modos de a fazer, de a pensar e de transmiti-la nas associações que compõem a FLAPPSIP. Pois, ainda que haja diversas modalidades de institucionalidade presentes nas diferentes associações, resultantes de suas territorialidades nacionais e locais específicas, todas elas se articulam em torno da perspectiva de promover as condições para a produção do pensamento crítico coletivamente construído e compartilhado.
As práticas propostas sustentadas pelo Congresso efetivaram aqueles eixos norteadores e esses objetivos de forma consistente, ao apostarem nos formatos já consolidados pelos Congressos anteriores que se especificam em mesas de temas livres, ateliês clínicos, mesas plenárias e conferências magistrais.
Os dispositivos têm como fio condutor os trabalhos enviados por todes e quaisquer participantes das associações, sem hierarquização institucional – o que em nosso caso significa que membres do Departamento, aspirantes a membres, alunes do Curso de Psicanálise e do Curso de Psicopatologia Psicanalítica Contemporânea e externos podem enviar seus trabalhos de acordo com suas escolhas pessoais. Os textos são lidos pela Comissão Científica da FLAPPSIP para que possam ser agrupados por afinidades de temas em Mesas de Temas Livres e Ateliês ou para que possam vir a compor uma Mesa Plenária – estas se destinam a um público maior e congregam necessariamente membres de diferentes associações; finalmente, há convites para conferencistas, psicanalistas institucionalmente reconhecidos como referências em alguma temática escolhida e convites a interlocutores de outras áreas de saber e de fazer, tais como, por exemplo, historiadores, antropólogos e outres que possam sustentar a explanação de um tema relevante pertinente à proposta do Congresso para o conjunto de participantes.
Assim, as trocas clínicas entre psicanalistas por meio da organização das apresentações em ateliês permitiram um afinamento das discussões daquelas práticas, às quais os comentários de convidades previamente escolhidos desvelavam novas leituras ao material exposto, o que colaborava para incrementar a discussão com o público reunido para aquela apresentação. As mesas de temas livres reuniram sempre três trabalhos de autoria individual ou grupal, de associações diferentes, articulados por um elemento de problemáticas comuns, o que permitiu realçar a marca singular da expressividade clínico-teórica de seus autores e autoras e, embora o grande número de participantes tenha restringido um pouco a discussão nessas mesas, devido ao tempo necessariamente rigoroso, as primeiras articulações esboçadas nessas discussões resultaram instigantes. Tais formatos evidenciaram também questões a trabalhar e ajustes a se produzir nas condições materiais do local, do tempo e da organização que desdobre o fecundo potencial dos trabalhos.
Entretanto, outros desdobramentos em posterioridade revelam a prodigiosa produção de laços e nexos nos momentos pós-Congresso, seja estritamente considerado o término de cada dia de trabalho ou mesmo os horários das refeições ou o pisco noturno, quando encontros aleatórios deram chance a conversas ricas, regadas à palavra aberta, refeições e danças compartilhadas, seja considerando as elaborações da vivência em experiência depois que já voltamos para casa.
Nos pequenos encontros, a possibilidade de incluir o que ficou de fora nas discussões, principalmente o que pareceria dever ficar silenciado; nas grandes cenas, a possibilidade de vermos o que se destaca como reiteração do que é excluído pela desigualdade contemporânea – seja a turbulência política local e a repressão letal que a acompanhou, seja o detalhe insidioso de uma poltrona em má posição para a mulher participante da mesa plenária que falaria sobre uma das grandes mulheres silenciada pelos psicanalistas de seu tempo.[3]
Em todos os escritos que comentam essa experiência, a presença do território Peru é decisiva, seja como foco seja como pano de fundo. O impacto de uma natureza grandiosa que sustenta a história de um dos berços das civilizações humanas é inegável, de tal sorte que as oliveiras centenárias no miolo de um dos bairros ricos da cidade competiram por nossa atenção e reflexão com a pirâmide no meio de ruas de trânsito corriqueiro e com a Casa Colonial transformada em elegante e luxuoso restaurante de alta gastronomia. Nesses panoramas de grandes cenas é preciso ser diligente e ouvir com ouvidos bem abertos a narrativa dos guias, seja os que se apresentam fascinados pelo colonizador – como na Catedral de Lima – seja o Silva, como bem contou Maria Silvia Borghese sobre uma visita a Pachacámac, território de múltiplas camadas de história dos povos pré-colombianos, em que podemos entrever a guerra e o domínio, mas não o extermínio que faz desaparecer a História. O Peru se nos apresentou como um território que nos interpela, pelas raízes da civilização assim como pela reverberação de séculos de colonialidade, extermínio e resistência.
Nesse grande cenário, a magistral conferência de Isildinha propôs a questão racial conforme nós a pensamos: algo que interpela a psicanálise por meio da problematização dos efeitos psíquicos sobre o corpo negro que permanece atacado pela re-traumatização promovida pelo racismo estrutural.
Os restos atuais da escravização e da colonialidade se imiscuem em nossa prática da vida cotidiana, assim como ensurdecem ao silenciar automaticamente as vozes que ousam buscar se fazer ouvir. Entretanto, Isildinha nos lembra, com sua afirmação e pergunta emblemáticas e orientadoras: “Somos todos racistas. Que racista sou eu?”
Colocada no contexto do Congresso, suas afirmações e seus questionamentos provocaram comoção e promoveram reverberação nos dias seguintes e nos encontros nos corredores e bares. Para a maioria das associações, a relação dessas questões com as questões raciais presentes nessas sociedades em relação aos povos originários instigou a reflexão e é possível que venham a incidir na formatação do próximo Congresso.
Da mesma maneira, esse impacto fez retorno sobre nós! Ele evidenciou a responsabilidade das e dos psicanalistas que somos atualmente em seguir construindo uma nova dimensão de escuta, que se situe na territorialidade construída por essa história de domínio, de modo a transformá-la. Também reavivou o momento instituinte de nossa inserção na Federação que é a FLAPPSIP e o ressignifica nesta posterioridade como um momento de instalação efetiva de uma direção decolonial da psicanálise que praticamos. Nos próximos meses, as ideias e os afetos que dão corpo e animam esse espírito decolonial se presentificarão nas atividades que serão desenvolvidas pelo coletivo FLAPPSIP e, esperamos, venham a engajar cada vez mais colegas nessa participação.
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[1] Nota dos editores: ”Sobre o XIII Congresso FLAPPSIP” foi a matéria publicada neste jornal em abril de 2025, disponível em: https://sedes.org.br/Departamentos/Psicanalise/boletimonline/2025/04/10/sobre-o-xiii-congresso-flappsip/
[2] Em “O Congresso da FLAPPSIP e uma conversa com Silvia Alonso”, por Lucas Ribeiro Arruda, Blog do Departamento de Psicanálise, 21 de setembro de 2023.
[3] Um detalhamento significativo daqueles encontros assim como as reflexões pós Congresso têm registro em vários dos textos do Blog do Departamento pós Congresso e nas Crônicas do Congresso no Boletim online 77, disponíveis em: https://sedes.org.br/Departamentos/Psicanalise/boletimonline/2025/11/16/eros-alteridade-e-criatividade-em-tempos-de-assombro/