sexta-feira, 17 de abril de 2026 - 10h35

Resposta à TV Cultural
17 abr 2026

Resposta à TV Cultural

São Paulo, 16 de abril de 2026.

À comunidade Sedes,

Nesse mês de Abril Azul, de 2026, dedicado à conscientização sobre o Transtorno do Espectro Autista (TEA), desde que a ONU instituiu o Dia Mundial da Conscientização sobre o autismo (2 de abril), a sociedade busca promover maior conhecimento sobre a condição, combater o preconceito e fomentar a empatia.

No século passado, quando a ciência ainda percorria caminhos cartesianos para elaborar seus diagnósticos, traçando conclusões entre causa e efeito de forma simplista, tanto a psiquiatria como a psicanálise também fizeram incursões teóricas para pensar esse quadro clínico, usando os mesmos raciocínios. Avançamos em todas as áreas, abandonando o pensamento cartesiano para sintonizar com o pensamento complexo das probabilidades. Temos grandes avanços para entender e trabalhar com todos os quadros psicopatológicos, absorvendo além do pensamento da complexidade, os conceitos de epigenética e plasticidade cerebral. Ainda, nas últimas décadas a psicologia do desenvolvimento nos apresentou um novo bebê, com inúmeras descobertas sobre suas competências, mostrando-nos que na sua interação com o ambiente há uma enorme capacidade de se apresentar como autor de condutas que afetam o seu cuidador, estando muito longe do ser passivo que conhecíamos no século passado.

Todas essas novidades exigiram mudanças radicais nos profissionais da área: fez-se necessário agruparmo-nos para cuidar de tudo isso. Não para formar um quebra-cabeça, mas para aceitarmos a complexidade dessa tarefa e a humildade de que sempre teremos que conviver com a dúvida, mesmo que a probabilidade de acerto nos pareça próxima do cem por cento.

 A TV Cultura, sempre sintonizada com as demandas socioculturais, convidou para participação no importante programa de entrevistas Roda Viva, no primeiro programa do mês da Conscientização do Autismo (06/04/2026), o neuropediatra José Salomão Schwartzman, um especialista com experiência na clínica privada no cuidado do Transtorno do Espectro Autista (TEA) e de distúrbios do desenvolvimento. O médico debateu aspectos do diagnóstico do TEA e a importância do suporte especializado no Brasil.

O Instituto Sedes Sapientiae, instituição fundamentada em posições que privilegiam as diferenças e pluralidade de posições no trabalho da escuta do sofrimento humano, vem aqui colocar algumas diferenças sobre o posicionamento deste excelente profissional, além de focar aspectos fundamentais da atualidade, ignorados na sua fala.

  1. Colocou-se contra a inclusão das crianças com autismo nas escolas em geral o que contradiz todo movimento educacional brasileiro, que trabalha na direção de construir uma rede de apoio interdisciplinar e intersetorial, com a construção de projetos educacionais que visam a aprendizagem da criança e sua inclusão nas atividades escolares. Antes do marco legal que garantiu o direito à educação inclusiva, crianças e adolescentes com autismo eram frequentemente apartados do convívio social e mantidos em contextos institucionais segregados, prática associada ao agravamento de sintomas e à restrição de seu desenvolvimento. Concordamos que se trata de um projeto ambicioso e sujeito as muitas falhas, mas necessário e coerente com os novos conhecimentos sobre esse quadro clínico.
  2. No decorrer da entrevista, o profissional fez críticas levianas sem a merecida seriedade, do tipo “a quem o sujeito com autismo quer enganar quando entra numa faculdade”, o autismo não tem cura, vou no máximo “melhorar esse indivíduo”, a questão do espectro como uma “invenção” da mente de algum colega inapto. Esses comentários ignoram o que autistas podem alcançar em termos de inclusão social, naturalmente de acordo com o nível de comprometimento de seu desenvolvimento e dos trabalhos realizados com ele.
  3. Ao mencionar as terapias psicológicas disponíveis para tratar pessoas com autismo, além de demonstrar um desconhecimento sobre psicopatologia na infância, revela também desconhecimento sobre suas técnicas as quais sintetiza como tentativas de encontrar “metáforas” que façam sentido para o “indivíduo”, deixando o público ouvinte com a ideia de que o psicanalista colocaria o sujeito com autismo num divã. Corrigimos, ressaltando que o tratamento de orientação psicanalítica é um conjunto de procedimentos terapêutico-educacionais de caráter interdisciplinar que visa ao restabelecimento da estruturação psíquica, de linguagem e de aprendizagem, dirigido às crianças e adolescente com autismo, assim como a seus pais e a seus professores.
  4. Ignorou profissionais relevantes no Brasil e desdenhou dos esforços de décadas em trabalhos institucionais com resultados importantes e publicados no Brasil e no mundo. Além disso, subestimou esforços da rede pública através de CAPS que tem buscado com muito empenho construir um trabalho que não se defronta só com a dificuldade do quadro clínico, mas também, com a problemática sócio cultural da população brasileira.
  5. Ignorou uma frente de trabalho fundamental nesse campo que é o trabalho com bebês de risco em saúde mental: profissionais de todas as áreas estão se organizando e trabalhando na construção de uma rede de atenção para crianças de risco através de ações interdisciplinares, identificações de sinais de risco, intervenções através de terapias conjuntas com pais e outros especialistas, utilizando consagradas técnicas lúdicas e compartilhando o cuidado com outras especialidades. Novas descobertas apontam para a intervenção oportuna usando novas metodologias de avaliação e intervenção, já a partir do nascimento, tentando intervir nos sinais sensório motores os quais já sabemos constituírem um caminho para a organização do quadro autístico. Portanto, diminuir sinais de risco tem todo um conceitual multidisciplinar, sendo considerado de maior importância mesmo que posteriormente haja um diagnóstico de TEA. Política de diminuição de danos, via acesso ao trabalho desses sinais de risco é assunto de extrema relevância no mundo e já temos inúmeras equipes funcionando no Brasil, tanto na rede pública como na rede particular.
  6. Considerando a heterogeneidade do quadro atualmente definido como autismo e a noção de complexidade que discutimos no início desse texto, não podemos considerar plausível a ideia de uma única linha terapêutica aplicável a todos os casos. Mesmo as abordagens mais amplamente estudadas ainda apresentam limitações quanto às evidências científicas disponíveis. Diante da complexidade desses casos, torna-se cada vez mais clara a importância da articulação de diferentes abordagens na construção de um projeto para cada criança.

Reiteramos que críticas são muito bem-vindas na psicanálise. Não são agradáveis, mas bem-vindas. Porque ciência que se preza escuta, pensa, repensa e reformula.

Atenciosamente,

Instituto Sedes Sapientiae


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